Wabi Sabi e as pedras

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Vivenciar o mundo de dentro dele, contemplar os momentos perfeitos dentro de um mundo imperfeito, observar os detalhes e cultivar o deleite… Segundo Beth Kempton em seu livro Wabi Sabi, esses são alguns passos (e vantagens) de pela própria natureza da vida “viver” o wabi sabi

Erroneamente nos dias de hoje, se olha o wabi sabi apenas como um estilo de decoração, mas, na verdade, é praticamente uma filosofia, uma estilo de vida, que resulta no ambiente que envolve as pessoas que escolhem vivê-la.

O termo wabi sabi tem origem no Japão, mas é algo que os próprios japoneses reconhecem, mas não definem, apenas vivem em seus corações e mentes, é uma questão que envolve menos o que vemos e mais o como vemos.

As duas palavras, separadamente, não formam exatamente o que a gente enxerga que significam. Separadamente, wabi, significa gosto suave,  está ligada a encontrar a beleza na simplicidade e sabi, pátina, visual antigo, simplicidade elegante, se conecta com a passagem do tempo, a forma como as coisas crescem e se desgastam alterando o aspecto visual de tudo. 

Um coração wabi reconhece a beleza sabi.

Vai além da beleza de qualquer objeto ou ambiente, se refere a reação de alguém a essa beleza profunda. O wabi sabi de uma pessoa não é o mesmo da outra, por que cada um de nós vivencia o mundo de forma única. Sentimos wabi sabi quando entramos e, contato com a essência da beleza autêntica, despretensiosa e imperfeita, que fica ainda melhor justamente por isso. Essa sensação é gerada por uma beleza natural austera e sem adornos.

James Joyce, no seu romance “Retrato de um jovem artista” disse:

O instante em que essa suprema qualidade de beleza, a radiação clara da imagem estética, é aprendida luminosamente pelo espírito que foi surpreendido por sua inteireza e fascinado por sua harmonia, é o luminoso êxtase silencioso de prazer estético, um estado espiritual muito similar à condição cardíaca que o fisiologista italiano Luigi Galvani […] chamou de encantamento do coração.

Porém, o que fascina é quando os dois se unem, formando o termo wabi sabi, que revela sua verdadeira beleza não em objetos, mas na própria natureza da vida. A escritora nos apresenta algumas possibilidades de óticas em relação à expressão.

Wabi sabi é uma resposta intuitiva à beleza que reflete a verdadeira natureza da vida

Wabi sabi é uma aceitação e uma apreciação da natureza inconstante, imperfeita e incompleta de todas as coisas

Wabi sabi é o reconhecimento do presente que é a vida simples, lenta e natural.

Algumas das principais lições de vida que podemos tirar do wabi sabi se fundamentam nas seguintes ideias:

– O mundo parece muito diferente quando você aprende a enxergá-lo e a vivência-lo a partir do coração

– Tudo é transitório, incompleto e imperfeito, incluindo a vida em si, portanto, a perfeição é impossível e a imperfeição é o estado natural de todas as coisas, incluindo os seres humanos.

– Há beleza, valor e conforto na simplicidade.

Olhando para as pedras naturais, podemos enxergar wabi sabi com muita clareza, uma vez que cada pedra viveu em seu processo de formação inúmeras transformações através do tempo e de eras.

O que torna cada pedra única e especial é o simples fato de que o processo que a criou foi único, ao utilizar rochas em um ambiente, em elementos de decoração, podemos ter a certeza de que temos, em cada mineral, um retrato de um tempo que passou e deixou nelas impressa uma realidade, um momento, eventos às vezes tão grandiosos que chegaram a separar continentes.

    Lidando com pedras naturais diariamente, desde sua origem até onde ela está aplicada, seja em uma cozinha, em um piso, ou em um banco em uma praça, o que podemos dizer é que literalmente cada metro quadrado compõe uma história. 

A parte mais dolorosa de nosso trabalho na verdade é quando percebemos a rejeição do olhar de alguém ao que se julga como defeito, por sabermos que aquilo não foi “fabricado” em uma indústria, mas, processado em cada cristal ao longo de milhões e milhões de anos desde o interior da terra até a superfície onde vivemos.

    As características mais belas da natureza são os elementos que são formados em meio a fortes tensões, impactos, movimentos de placas tectônicas, terremotos, movimentos glaciais, movimentos de rios e marés, por evidenciarem nas rochas tudo que aconteceu em nosso planeta ao longo de seus mais de 4 bilhões de anos.

Com isso, a impermanência é algo que compõe não apenas as plantas, não apenas as pessoas, mas está presente no solo em que vivemos, está presente quando escolhemos uma rocha natural para uma mesa de jantar, um piso, uma cozinha.  

As pedras quando usadas como elementos wabi sabi, podem proporcionar diversas experiências de contato direto com toda sua trajetória por meio do próprio design da rocha, a técnica usada para polir/lapidar ou criar texturas nas superfícies, ou a forma como o material é utilizado, o nível de “brutalidade e crueza”, que pode ser escolhido para trazer a pedra quase em seu estado in natura para dentro de um ambiente.

Dentro desse contexto, algumas aplicações se tornam perfeitas em suas concepções pelos elementos que utilizam e criam. 

Qualquer pedra é uma representante da natureza em sua própria existência, utilizá-la “tratada”, polida, escovada, flameada ou matte, é sempre uma excelente escolha, mas, usá-la em seu estado bruto com poesia e beleza, pode ser considerado uma arte. Nesse contexto, a lente do wabi sabi pode nos inspirar a viver a simplicidade emocionante de estar ao lado de algo produzido ao longo de eras e nas mais severas intempéries e valorizando o que a natureza nos deu na sua forma original, natural e até visceral.

Um exemplo brilhante que podemos mencionar de uma aplicação nesse nível de profundidade que podemos abordar é a aplicação por Anik Mourão de disjunções colunares em uma ilha gourmet na Casa Cor Ceará 2021. 

A “Estância Piuba” trouxe com uma simplicidade emocionante uma pedra que em seu estado natural formam hexágonos em forma de colunas. O conjunto de peças foi trazido diretamente de uma pedreira no Ceará tendo sido desmontada para traslado e remontada coluna a coluna diretamente no ambiente e preservando as superfícies naturais das laterais dessas colunas com suas respectivas fraturas, variações de tonalidade e textura.

A ilha também traz um elemento muito forte do wabi sabi que é sobre o “lar” feito para viver e a vida não é perfeitamente arrumadinha. O fato de as colunas não estarem perfeitamente encaixadas, as “brechas” que foram deixadas propositalmente pela especificadora trás a mensagem da casa vivida, amada e nunca terminada.

“Quando se está na montanha, é a montanha que ensina”, ter um elemento como esse dentro de um ambiente, é trazer um pedaço desse aprendizado para o seu lado, todas as suas marcas, energias, singularidades e exclusividade.

    No que tange às pedras em ambientes de arquitetura e decoração, um outro ponto que precisa ser aceito é que nada é completamente imutável, a transitoriedade dinâmica é o estado natural de tudo, inclusive para nós, os seres humanos. E assim como nós, as pedras também mudam com o decorrer do tempo, no entanto, sua essência não se transforma.

Dessa forma, 6 pontos são fundamentalmente importantes quando a filosofia wabi sabi for a eleita para nortear a escolha das pedras na estrutura e/ou decoração de um ambiente ou obra.

  1. Quem é ou são as pessoas que irão conviver com esse projeto diariamente

Acho que esse é o ponto que antecede tudo na decisão de quais rochas usar em um projeto.

Tenha certeza do momento do seu cliente ou da sua vida, algumas pessoas não suportam manchas, não suportam variações, não suportam mudanças. Algumas pessoas, com o decorrer da vida, mudam e passam a aceitar isso como marcas do tempo, assim como as rugas. Outras, parece que já nascem com toda a sabedoria dos tempos e não se incomodam com as interferências e mudanças do dia a dia. 

O mais importante, sem ser muito filosóficos, é que todos mudamos, mas todos temos o momento “agora”, que é aquele t(0), o momento em que se decide morar sozinho, aquele em que vem a decisão de casar, aquele em que se decide ter 1, 2, ou vários pets em casa, aquele em que vem a decisão, casa ou apartamento? Alugar ou comprar? Quartos grandes ou uma super área de estar com varanda, deck, ou tudo isso junto? Cozinhar mais em casa ou usar mais delivery? Sais mais ou ficar mais em casa?

Esses são alguns pontos que se devem levar em conta na hora de definir quais revestimentos vão acompanhar a vida das pessoas, afinal, poucas pessoas “moram” para se mudar em 6 meses ou 1 ano, com isso, nada em uma casa é tão efêmero. Saber o momento em que seu cliente está na vida e o próprio usuário ter esse entendimento vai ser uma mão na roda na hora de definir por exemplo se ele precisa de um quartzito na cozinha, que vai ser a opção superior em todos os quesitos, ou se um granito atende bem ou mesmo se ele pode usar um mármore sem maiores problemas.

Saber isso vai ser determinante na escolha das pedras que serão usadas em determinado ambiente ou projeto.

  1. Não vai ser tudo igual

As pedras são como “seres vivos”, não existe uma igual a outra e mesmo dentro das mesmas pedras, a não ser que estejamos de um granito de padrão uniforme, vai ter diferença sim!

Essas variações de padrão, fazem parte do ciclo de formação das rochas e estão estampadas em todas elas em suas cores, movimentos, índices de absorção, porosidade, resistência ao desgaste, resistência a flexões, compressões, congelamento e degelo e etc.

Se a busca é por uniformidade, alguns granitos como o Rain Forest, o Light, o Branco Nevasca, têm suas estruturas altamente homogêneas, mas, se usados em grandes escalas, como uma obra com 20.000m² por exemplo, variações mesmo que sutis vão ocorrer, aí entram recursos de organização de obra que tornam essas variações imperceptíveis. 

Em obras residenciais e corporativas, convivemos muito no entanto com o sonho de ser tudo absolutamente igual, mas, na própria natureza existem elementos que fazem parte dela e que vão fazer parte dos revestimentos em rocha e isso faz parte da sua perfeição.

Veios, movimentos de minerais, concentrações de minerais, desproporção em faixas, desencontro de camadas, tudo isso faz parte da beleza da formação das rochas, principalmente quando estamos tratando de quartzitos, sejam eles cristalinos ou arenosos e todas as rochas que o mercado chama de exóticas.

  1. As texturas podem replicar as transitoriedades de tempo e tornar tudo mais natural podendo ser uma forte ferramenta de apoio na decisão dos revestimentos

Polido, Levigado, Matte, Flameado, Velvet, Bruto, Escovado, Sand e vários outros são os acabamentos de superfície que compõem o universo das pedras hoje em dia.

Aqui está um super coringa na hora das especificações e escolhas. A indústria de processamento de rochas está sendo cada dia mais desafiada a desenvolver novas texturas que vão proporcionar uma nova dimensão para as pedras a seus usuários dando a elas uma dimensão além da tridimensionalidade usual que é a agregação do sentido tátil.

As pedras quando polidas, tem um apelo visual muito forte, pois, o polimento (que nada mais é que uma lapidação) trás as cores e desenhos da pedra para os olhos de quem as vê. Mas, nos últimos anos, acabamentos sem brilho e que trabalham a mesma beleza dos desenhos ou sobressaem outros atributos tão bonitos quanto quando o elemento sensorial é acrescido.

Não são todas as pedras que aceitam qualquer acabamento, pois alguns deles demandam uso de fogo, uso de ferramentas de impacto, ou mesmo nenhum tipo de tratamento, o que demanda uma pedra resistente e estruturalmente “perfeita”. 

  1. As formas orgânicas replicando a natureza perfeitamente bem

Uma maneira prática de fazer uso da filosofia wabi sabi na decoração utilizando pedras é nas formas de corte, replicando formas da natureza, como a forma de matacões, montanhas, remontando o desenho das ondas do mar, das águas, das copas das árvores. Os cortes curvos e assimétricos em mesas de jantar, mesas de apoio, até mesmo em espelhos, bancos, estão muito em alta e são mais um ponto de exclusividade em qualquer projeto.

A fluidez, o dinamismo e a harmonia são as palavras chave no design de peças pelas formas da natureza que podem ser incrementados com muita elegância e funcionalidade criando uma  interação entre o usuário com o ambiente com o suporte de aspectos naturais como a luz, outros materiais orgânicos como tecidos, fibras, madeiras, etc.

O que é fundamental para dar certo, é ter profissionais de qualidade para cortar e fazer as bordas. Um bom profissional, vai conseguir replicar essas formas orgânicas com perfeição e suavidade. 

  1. Pedras naturais podem ser usadas como “protagonistas” em um projeto de filosofia wabi sabi

Pedras naturais são desperdiçadas quando escolhidas apenas para serem coadjuvantes, elas fazem parte “do acabamento, da roupa de uma obra” e quando bem usadas, não tem como não se tornarem protagonistas e um eixo da linguagem de um lugar. As pedras possuem uma linguagem que transcende barreiras de tempo, deixando qualquer ambiente “natural” desde que bem usadas. 

A quebra dessa barreira, dá atemporalidade a um projeto, uma vez que dependendo de como sejam usadas, as pedras podem trazer inclusive uma vernacularidade, quando usadas em sua forma natural como sob a forma de matacões, com suas fraturas expostas, com texturas naturais e cruas.   

Pisos, fachadas, revestimentos de mobiliários em pedras podem se tornar grandes oportunidades na hora de trazer essa arquitetura orgânica para os projetos, uma vez que sendo em pedra maciça, trazem a natureza e as origens da terra para dentro de um ambiente, já pensou acordar de manhã e pisar em uma pedra natural? Que energia isso pode nos dar.

  1. Aceitar o preço de cada escolha

A natureza muda, as placas tectônicas mudam, as pedras na natureza se altera/intemperiza, com isso, sim, sua pedra vai mudar ao longo do tempo, o que podemos fazer é escolher aquelas que levem mais tempo pra mudar, que hoje temos certeza de quais são, temos opção para isso no mercado e principalmente ter ciência de que dependendo de sua escolha, sua pedra vai sofrer mais ou menos alterações e isso vai passar a fazer parte da história da vida do seu cliente.

Não há problema por exemplo em colocar um mármore em uma cozinha, desde que o cliente tenha ciência do que pode acontecer e aceite isso como sendo algo que agrega e não incomoda. 

Quando a gente olha para o passado das civilizações, a humanidade enquanto usuária de pedras para revestimento tinha uma forte limitação de uso, que era a dureza das pedras, não havia como trabalhar em nenhuma etapa do processamento das rochas com a dureza das que trabalhamos hoje, como a família dos quartzitos e muitas vezes os próprios cristais de quartzo ou pedras tão duras quanto.

Com isso, atualmente, tanto especificadores quanto usuários, podem ter a tranquilidade de escolher a melhor solução para seus estilos de vida e seus momentos e podem se for seu desejo, abusar do estilo que descende da filosofia wabi sabi sabendo que nas pedras podem encontrar um eixo de trabalho sólido, atemporal e exclusivo que ajudarão a tornar cada projeto único e especial.

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